25 de janeiro de 2010

TAL PAI... TAL FILHO...


Entres os sites que eu aprecio e recomendo, aqui no Bystander, está o GUTERMAN, escrito pelo amigo Gustavo… Guterman (claro!).

Gostaria de compartilhar os eventos que me levaram a essa amizade. Foi assim:

Em uma tarde tijucana, o professor Ivo Guterman foi responsável por me definir para a vida. Convenhamos, para um jovem, não é pouca coisa. O calendário marcava 1982 e ele era meu professor de biologia no Instituto Guanabara. Um sujeito brincalhão, sacana, com olhos azuis espertos e severos. Pois bem, estávamos tendo uma aula dele, numa sala no segundo andar, quando eis que a porta se fecha com um estrondo e a turma toda fica presa, porque a maçaneta cai para o lado de fora. "Oba!”, penso eu, “Posso sair pela janela, me esgueirar pela telha e tentar abrir a porta pelo outro lado”. O Ivo me contou depois que, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, eu já estava pulando feito o Batman.

Considerem, esse narrador era um adolescente sem nenhuma noção do perigo.

Mas quando, ainda no telhado, estava tentando pular a mureta e cair de volta ao corredor, eis que a porta se abre e meus colegas surgem livres e felizes. Resta que se organizem para me puxar de volta. Tomo impulso na telha (como se ela fosse um trampolim) e ela se parte debaixo dos meus pés. Meus colegas conseguem me agarrar e, graças a um mais forte, o César, eu não caio e morro naquela tarde. Mas a telha quase mata a bibliotecária idosa. Se estraçalha exatamente na frente dela. Foi por muito pouco. Sou levado até o diretor do Guanabara e recebo a maior (e mais merecida) bronca da minha vida. Acerta-se que meus pais pagarão a telha etc. A bibliotecária, que era muito minha amiga, me perdoa. Diz que sabe que eu não fiz por mal. Mas, puxa, eu quase matei uma pessoa, quase morri, levei uma bronca homérica e ganhei uma dívida grande. Tudo em menos de trinta minutos. Até hoje acho que bati um recorde.

Estou totalmente arrasado. Para completar, a turma toda me dá um banho de zombarias.

E eis que surge o Ivo (ele tinha que prosseguir com a aula). Grita mandando que toda a turma se cale. Olha para mim com um sorriso e começa a falar numa progressão cada vez mais apoplética, como um Henrique V tronitroando o discurso que precede a batalha do dia de São Crispin (juro!):

"Vocês não tem o direito de sacanear esse garoto! O que ele fez foi pensando no bem de todos vocês! Ele agiu errado? Sim! Ele fez uma besteira? Fez! Devia ter pensado antes? É claro! Mas a partir de hoje ele vai pensar! (e olhando para mim e apontando de forma categórica) Porque, meu filho, você vai pensar! Ah! Você vai! A coisa que você vai fazer melhor agora vai ser pensar antes de fazer as coisas! (e se voltando para a turma) Vocês querem saber por que ele fez isso? Porque ele é um romântico! Ele é um romântico! Ele acredita que suas ações podem ajudar os outros! Ele acha que elas podem fazer uma diferença na vida das pessoas! Mais: ele quer isso! (suspira) Céus! Quanto sofrimento isso pode trazer! (e voltando a apontar para mim) Mas, meu filho, nunca perca isso! No dia que você não tiver mais isso dentro de você, vais estar morto! Vai estar vivo, mas vai estar morto para a vida! (voltando para a turma) Vocês precisam aprender com ele! Guardem essa atitude dentro de vocês, porque isso os tornará mais humanos! Pois, acreditem, quem não possuir esse dom irá ajudar a tornar esse mundo um lugar muito mais sombrio".

E, após falar isso, me abraçou e me agradeceu. Acho que ele estava com os olhos marejados. Sei que eu estava.

Nesse ponto acabo de compartilhar, aqui, a lição mais importante que o Ivo me legou. Ainda continuo pulando janelas, mas tento ter cuidado para não quebrar as telhas. De vez em quando falho, outras vezes não.

Bem, esse era o Ivo. Um grande homem, no que esse título tem de mais significativo. Meu herói e meu professor. De biologia e de vida.

A história acabaria aqui, mas viver (como vimos acima) é ter surpresas. E uma das maiores aconteceu em 2004. Vinte e dois anos depois desses eventos, eu, tijucano de coração (você pode tirar o menino da Tijuca, mas não pode tirar a Tijuca do menino), entro para a comunidade do Instituto Guanabara no orkut (era batata que estaria nela). Um dia aparece o seguinte tópico: “Alguém se lembra do Ivo Guterman?”. Posto que sim. Que ele tinha sido muito importante para mim. Vem a resposta: “Meu pai! Puxa! É tão bom ouvir isso dele!”.

Meu queixo cai. Pesquisando descubro que o nome do rapaz é Gustavo e que o Ivo morreu pouco tempo depois do nascimento dele. Não perco tempo. Vou até a sua página e conto toda a história narrada acima, que ele compartilha com a família. Emocionado, marca (na Tijuca, claro!) um chope de confraternização pela memória de um grande sujeito. Entre um copo e outro afirmo que o Ivo era tão malandro, mas tão malandro, que, tenho certeza, me fez guardar o discurso daquela tarde de 1982 para eu reproduzir para o filho.

Que professor bacana! Como um presente adicional, além de me ensinar bem (de forma que passei no vestibular) e fazer um discurso que transformou o que deveria ser um dos piores dias da minha vida em um dos melhores, Mestre Ivo me forneceu um amigo que se diverte com esse romantismo que ele definiu tão bem em mim. Sim, confesso, ainda acredito na vida como algo extraordinário. Que posso fazer? Ela é mesmo. Mas o Gustavo entende. Ri quando, por exemplo, uma beleza feminina passageira, sensual nos óculos, me faz errar a bola de sinuca no Lapa 40*. “Essa não valeu!”, diz ele. “Pode repetir!”. Audacioso, se lança para viagens em terras distantes; se torna artista gastronômico profissional, usando a cozinha para criar iguarias inimagináveis e drinques que produzem flutuações como as dos padres de Garcia Márquez.

As vezes me pergunto quem é o mestre na nossa amizade? Aprendo muito com as demonstrações de respeito, apreço e alegria que esse amigo me dedica (a última foi um post fraterno que ele escreveu sobre mim no GUTERMAN. Estou honrado, Gus!). Nesses quesitos ele é muito mais sábio do que eu sou. Esses Gutermans sabem mesmo o valor da vida. E sabem ensinar. Sou grato a ele, como sou grato ao seu pai.

E afirmo, sem pestanejar, que o Ivo teria um orgulho danado desse meu amigo!

Muito orgulho mesmo!

Valeu, Gustavo!

Vai mais um chope?

(Na foto: Ivo e Gustavo Guterman. Arquivo de Gustavo Guterman)

7 comentários:

Carla Cintia disse...

Linda história. Ontem, chegando ao Lamas, no pós-show do Tavito, falávamos de vossa mercê. Há que se marcar um boa rodada de chope.
beijo

Adriana Hollós disse...

Soneto!
Que história linda!
As palavras soam como se você estivesse me contando, ao vivo!
Adoro! Muito! Você e tudo que você escreve!

L. Rocha disse...

Por quê o "último" post? Não entendi.
Abraços

Ricardo Soneto disse...

Léo Rocha! Meu companheiro blogueiro! Tens razão! Quando passei o link para vocês usei a frase "Dedico o último post no blog aos...". Dava a impressão que esse era o post final e definitivo! Não tema! Outros virão! Prometo! Abração!

Andréa Lion disse...

lindo texto de memória! e presente!!!
beijos!

Gustavo Guterman disse...

muito, muito obrigado amigo soneto. por culpa sua, lágrimas de saudade!

um abraço bem forte

Mauricio disse...

Belo Texto. Sempre me lembro de você com camiseta do Batman na EMI - agora entendi o motivo.
Abraços.