20 de julho de 2009

"WE CHOOSE TO GO TO THE MOON!"


"We are not now that strength which in old days

Moved earth and heaven, that which we are, we are,--
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield. "
(Ulysses -Alfred Tennyson)

Foi há 40 anos…

Estava em Manaus, no meio de uma praça cheia de gente. Por conta da zona franca local e, pelo conseqüente fascínio por eletrodomésticos importados, foi espalhado um número enorme de televisores em estruturas metálicas desordenadas, que lembravam instalações do coreano Nam June Paik. As imagens em preto e branco eram absorvidas por um público ansioso. A narração lembrava uma partida de futebol. No meio daquela capital cercada de uma floresta densa, estava assistindo o homem pousar na lua.

Lembrava que em 1968, no Rio, antes de embarcar para o Amazonas, minha mãe me mostrara a foto da Terra, obtida pela Apolo 8, estampada na capa de uma Fatos&Fotos. Minha atitude foi de total “e daí?”. Ora, o Thunderbird 3 mostrava a Terra sempre que subia com seus pilotos bonecos para se acoplar na estação Thunderbird 5. Minha mãe me apresentava um milagre e minha infância tratava aquilo como um cotidiano absoluto e resolvido. Viajar no espaço? Bolas! Nós fazíamos isso toda a semana na TV, certo?

E, naquele final de dezembro, os astronautas Borman, Lovell e Anders presenteavam a humanidade com algo jamais visto por qualquer ser vivo: o nascer da Terra no horizonte de outro corpo celeste. Uma visão da verdadeira dimensão da nossa casa no universo. Um mármore azul com faixas brancas. Tão pequeno. Tão bonito. Ilha no céu. Com vida. Conosco. Com tudo.

Anos mais tarde, bem adulto, voltaria a olhar as fotos. E entenderia o significado das imagens. E agradeceria.

Mas voltemos aquele 20 de Julho de 1969. Estava ao lado do meu irmão. Meu pai se postava à nossas costas como um gigante de braços cruzados. Para passar o tempo, me recordava de um documentário de TV, exibido no Rio e assistido antes da saída final, da minha família, para o aeroporto. Nele era descrito a importância da missão Apolo. “Não, garoto! O homem jamais colocou o pé em outro planeta ou satélite! Entendeu agora, garoto?”. Na noite amazonense, os eventos e expectativas iam crescendo até o grande clímax.

Agora! Pé na lua! Bola grande e branca! Gol! Abraçava meu irmão como se a seleção brasileira tivesse feito o mais magnífico dos pontos (mas isso era algo para 1970). Duas crianças vibravam com as imensas promessas iniciadas ali.

Ainda com os braços cruzados, meu pai olhava a explosão de euforia em torno, meneava a cabeça e repetia: “Como as pessoas são bobas! Acreditam mesmo nisso! Americano é fogo mesmo! Engana todo mundo!”. Olhei para ele perplexo. Como não podia acreditar?

De um modo estranho, a descrença dele me ensinou algo sobre o valor dos atos. Passei os anos seguintes vendo o futuro ser demonstrado em outros pousos lunares (o tormento da Apolo 13 foi cuidadosamente escondido, desse fã de astronautas, pela minha mãe) e na beleza do Concorde, a obra mais poética que a tecnologia realizou. Mais recordações: em seu vôo de apresentação mundial, meu pai conseguiu, com o auxílio de um amigo funcionário do antigo Galeão, esconder seus dois filhos em uma kombi, para que eles vissem, de perto, o supersônico repousando na pista noturna. Os seguranças da aeronave tiveram o carinho de permitir o entusiasmo infantil dos meninos que corriam de um lado para o outro observando um Thunderbird real. Era o “Fireflash”, do episódio piloto do seriado de aventuras inglês. Era o maior brinquedo de todos. Céus! Ser adulto tinha que chegar logo! Um mundo fantástico nos aguardava. Iríamos morar na Lua. Iríamos construir mais máquinas tão eficientes quanto bonitas. The best is yet to come.



Em 1981, testemunhei, sozinho, a subida do Colúmbia, o primeiro ônibus espacial. Anos depois ele explodiria, seguindo o destino do Challenger. Um Concorde sofreria um trágico acidente, espalhando destroços e sonhos. Os passos humanos no satélite terrestre já não aconteciam desde o final de 1972. Os baby boomers assistiam seu tão ansiado futuro se tornar um futuro pretérito. A pá de cal foi o vôo derradeiro, NY-Londres, do Concorde, aposentado como o Saturno V. E assim ficou. Se antes olhávamos para uma astronave do tamanho de um edifício de 35 andares, sinal dos tempos, o que era macro virou micro. Em 1969, os computadores do centro de controle em Houston tinham como capacidade de memória… 64k! No mundo dos bilhões de bytes isso soa um misto de loucura e ridículo. Mas, se hoje carregamos a ficção científica no nosso bolso, podemos agradecer o programa espacial por isso? Sem dúvida!

Convenci meu pai da alunissagem de 69, mostrando, há dois anos, um episódio de “From The Earth To The Moon”, série da HBO, que recriava a missão da Apolo 11 (sem surpresas aqui: um presente do meu irmão. Vamos, então, repetir o gol!). Sorrimos como se estivessemos numa máquina do tempo, voltando para aquela noite amazônica. Chorando feliz, papai repetia: “Não fazia idéia! Que bacana! Que bonito!”. Sua crença na reconstituição, um simulacro, foi mais forte do que a descrença no instante real. Minha lição sobre o valor dos atos prosseguia.

Valor dos atos. Costumo sempre afirmar que, para mim, os dois fatos mais importantes do século 20 foram as viagens do homem à Lua e o desembarque das forças aliadas nas praias da Normandia. Os momentos em que, com passos impávidos, demonstrávamos nossa determinação por um futuro melhor. Eramos galantes (por que não?), corajosos e monumentais em nossa humanidade. Nos mostravamos fortes e destemidos. Eramos heróis. Não queriamos apenas ser. Precisávamos ser. Éramos Ghandi, Martin Luther King, ou um homem parado diante dos tanques na Praça da Paz Celestial (para citar alguns). Mas passou o tempo desses homens e das suas naus? Chegamos à praia do hoje. E parecemos, agora, estáticos e meio “tecno-narcisos”, reduzidos na forma (mas com mais capacidade de memória). Será só isso mesmo?

Bem…

Considerem…

Talvez as viagens ainda prossigam na Terra. Olhamos para a Lua. Pensamos nos passos dos doze homens que saltaram das suas naves para continuar inspirando fronteiras no espírito. Graças à eles sabemos o formato real da nossa nave-mãe, o terceiro planeta a partir do Sol. Olhamos a Lua. E se nós andamos naquela pedra prateada e companheira, então somos capazes de tudo. Capazes de tudo mesmo. 3, 2, 1…

Um dia voltaremos à Lua. “Terraformaremos” Marte. Construiremos cidades celestiais. Olharemos, em órbita, os desenhos e os contornos das nuvens e dos continentes terráqueos. Seremos uma civilização cósmica. E nos lembraremos de um homem chamado Armstrong, o Colombo de tudo isso, e sorriremos.

Porque nada disso está em um futuro, mas nesse agora, diante de um computador, e nos momentos posteriores a ele, com nossos gestos, obras, coragens e afetos. Éramos astronautas de ontem? Somos “personautas” do presente. Explorando o humano como corpos celestes. Descobrindo mundos e sentimentos. Pousando passos gigantes na beleza de uma noite de luar, no meio da floresta da vida, entre matas e crateras.

E sabem por que?

Ora!

Houston! Tranquility Base Here! The Eagle Has Landed!”

9 comentários:

Hiro disse...

Lindo texto, Soneto. :)

Por coincidencia ontem fui no Museu de Ciencias aqui de Londres comemorar os 40 anos do Homem na Lua.
Como nao era nascido em 69, queria ter uma experiencia similar e celebrar de alguma forma esta data. O evento era a apresentacao do album Apollo do Brian Eno. Como eu te conheco, e' bem capaz de saber do que eu estou falando. :) Ao fundo projecoes da epoca em uma tela IMAX. O proprio Brian Eno estava la, e disse que o album foi inspirado nas fitas dos astronautas. Cada astronauta podia levar uma pequena fita-cassete com musicas para a viagem. A maioria das musicas era Country: Dolly Parton etc. Ele pegou estas musicas e fez versoes com notas looongas e muitos ecos. Enfim, foi uma noite especial no qual eu lembrei do amigo. :)

Bicarato disse...

Valeu, Ricardo! (texto compartilhado pelo Zander)

Carlos Alberto Mattos disse...

O que já era bonito ficou ainda mais bonito pelo retrovisor do seu olhar amoroso. E parabéns por não cair no saudosismo ingênuo e falar dos personautas.

Ciça Gambôa disse...

Será que vamos saber aproveitar esse novo personagem como "personautas"? Será que vamos lembrar o passado, viver o presente e moldar um futuro? Será que o nosso pequeno passo um dia vai valer a pena?

Marcelo disse...

Sempre uma leitura agradável.

Andre Arruda disse...

Grande Soneto. Você escreveu o MELHOR texto sobre MJ e Farrah, o Melhor de todos os que li. E agora nos brinda com essa maravilha sobre a maior aventura humana até hoje.

Creio que esse video nos vinga de todos os beócios que não acreditam. Aquele abraço.

http://www.huffingtonpost.com/2009/07/20/buzz-aldrin-punches-moon_n_241664.html

marcelo lachter disse...

My dear Sonet, congratulations.

L. Rocha disse...

Essa similar sensação eu tive em 82, quando a seleção canarinho foi à Espanha. Minha e outras ruas pintadas com o "Laranjinha". Não era nenhum momento histórico (na plenitude da palavra), porém marcou e doeu de modo absurdo em mim. De qualquer forma, belo texto.

abs

Léo Rocha

Gustavo Guterman disse...

Como sempre, palavras lindas...

saudades meu amigo


mts saudades...