
A Felicidade surgiu diante de mim enquanto Paul McCartney cantava "Blackbird". No palco, a foto de uma lua era projetada no exato momento em que eu, sentado na arquibancada do setor oeste do Estádio do Engenhão, via uma outra lua, essa real e amarela, se erguer com o gigantismo recém-nascido que sempre a caracterizava. A Felicidade era uma mulher, porque as Felicidades mais bonitas são mulheres. Era ruiva, com uma beleza refrescante, sem adereços nas vestes simples (apenas um jeans e uma camiseta com o bumbo do Sgt. Pepper) e sem desenhos na pele, branca como o luar, mas salpicada com sardas malandras. Sorria um sorriso cúmplice. Se aproximou docemente e me beijou os lábios. Deu um suspiro debochado.
- Noite bonita, não?
Fiz que sim. O estádio inteiro estava em súbito silêncio. Todos paralisados. Como esculturas de êxtase. No palco, o Beatle se congelara em um grito para alegrar. A Felicidade me pegou pela mão e começamos a andar com cuidado por entre as pessoas. As mais variadas estampas nas camisetas, criando um museu de malhas de algodão. Na platéia, alguns escondiam balões para serem usados mais tarde em uma brincadeira específica. Com calma, descemos até o gramado, onde outros escondiam placas para serem usadas no ¨na-na-na-na¨ de "Hey Jude". Subimos até o palco. A Felicidade deu um giro de bailarina e apontou para a multidão estática, que parecia uma pintura da vida, fixa em uma eternidade de segundos. Sua voz se entusiamou.
- Existo para isso, sabe?
Corremos pelo palco. Ela dava cambalhotas. Com a segurança de quem sabe o que está fazendo, foi até o backstage e me trouxe um dos baixos preparados para McCartney. Havia arranjado uma guitarra para si.
- Não sei tocar!
Foi a primeira vez que tive coragem de falar. Tinha medo que ela, com o som da minha voz, fosse embora. A moça ergueu uma sobrancelha ruiva.
- Sabe sim! E eu também!
Começou a abertura de "Ticket To Ride". Minha linha de baixo soou perfeita. Cada um se aproximou de um microfone. Começamos a cantar. Vozes em uníssimo, como deve ser quando se canta um dueto com a Felicidade.
Nosso canto ribombava pelo excelente sistema de som do estádio. Ao fundo o telão projetava as memórias...
O primeiro compacto comprado, com faixas de Please Please...
A dança infantil diante dos desenhos animados na TV (gostava mais do baterista narigudo. Era sempre o mais engraçado)....
A repetição inesgotável dos discos do período da beatlemania...
Os obladis, submarinos amarelos, good mornings e get backs...
O choro diante do inexplicável fim do grupo...
Os somethings...
As bandas na correria.
Os karmas instantâneos...
Os sweet lords.
O narigudo gente boa se divertindo com "Don't Come Easy".
As chantagens carinhosas para conseguir a coletânea vermelha e a azul. Os oito lados dos quatro LPs girando incessantes na vitrola (a ponto da agulha ser capaz de tocar músicas inteiras sem a necessidade deles).
A organização de grupos vocais na escola (yeah! yeah! yeah!)...
A aceitação de que o Got To Get You Into My Life pelo Earth, Wind & Fire era mesmo melhor...
Festas e reuniões de fãs empolgados...
Um amigo, igualmente beatlemaníaco (chegando para sua prova de recuperação de história), me contando, com olhos marejados (enquanto eu saia da minha prova de recuperação de química), que John Lennon tinha sido assassinado. A isso se seguindo a tarde de tristeza solitária na Basílica Santa Teresinha do Menino Jesus, na Rua Mariz e Barros...
A visão de um outro oito de dezembro, dois anos depois, onde esse mesmo amigo me recordava daquela manhã triste no colégio. Foi a nossa última conversa. Em apenas duas semanas, ele viria a falecer também, em meio à sua juventude...
Surgia no telão a caixa inglesa com a coleção completa de LPs. Presente de meu pai para o filho louco pelos Fab Four (e o Magic Mystery Tour, mimo de uma amiga igualmente louca)...
Os dois shows impressionantes no Maracanã, onde o frio da chuva era amenizado pelo conhaque fornecido (por fãs do Rio Grande do Sul) para mim e uma fiel amiga McCarteana. Duas noites inesquecíveis para os dois...
E livros...
E filmes...
E documentários...
E Anthologys...
E "ufas"!
Uma nova tristeza, agora pela morte de George Harrison...
A ternura de receber a caixa de CDs remasterizados. Presente de meu irmão para o mano louco pelos Fab Four...
Soava, ao longe, a voz bonita de uma amiga mostrando suas deliciosas versões para alguns desafios do Beatles Rock Band...
Surgia o holográfico ingresso para a apresentação daquela noite. Presente de um amigo ao amigo louco pelos Fab Four...
Apareceu a oportunidade de levar um pequeno fã de onze anos ao show. Ele merecia. Afinal de contas o pai músico, comovido pelo fato do filho também adorar uns certos Fab Four, havia acabado de lhe obter toda uma série de desenhos animados antigos (será que o pequeno fã achava que o baterista narigudo era o mais engraçado dos quatro?)...
O filme parou com o surgimento da lua naquela noite do Engenhão. A Felicidade tirou uma mecha ruiva da frente dos olhos e perguntou, moleca:
- Que tal mais uma música?
Sorri e fiz que sim. Começamos a cantar "Mr. Moonlight". Para minha surpresa, uma terceira voz apareceu. Paul cantava como um adolescente. Meu baixo virou uma guitarra rítimica. Ao terminarmos, o Beatle não perdeu tempo e emendou um "We Can Work It Out". As vozes se entregavam à canção (menos a da Felicidade, que apenas sorria apreciando o bom trabalho feito).
Ao final, Paul apertou, esfuziante, minha mão. Fizemos uma saudação à moda dos Beatles para a platéia, ainda suspensa no seu segundo inesquecível.
Gaguejando, falei para ele:
- Pode soar ridículo, mas você é a única pessoa na Terra que, se entrasse em qualquer lugar onde eu estivesse, me faria ter um desmaio! Juro!
Gargalhando, ele fingiu desmaiar no palco. Ficou estirado, como um traquinas de 68 anos, rindo da própria travessura. Eu e Felicidade o ajudamos a se levantar.
- Está gostando do show?
Fiz que sim com a cabeça. Estava zonzo. Pressão baixando. Paul chegou perto da ruivinha e apontou para mim.
- Qual o nome?
Felicidade sussurou no ouvido dele. O Beatle se divertia.
- Que engraçado!
Quando ela se aproximou para sussurar percebi que Felicidade, para Paul, se parecia com Linda McCartney. Não fiquei surpreso. A Felicidade era assim.
- Paul! Muito obrigado!
O velho garoto de Liverpool sorriu como se, apesar de já ter ouvido essa frase milhares de vezes, a escutasse pela primeira vez.
- Obrigado à vocês!
Enquanto a Felicidade me levava, pela mão, até a saída para o gramado, ainda ouvi o músico dizer:
- Hummm. Acho que, no show de amanhã, vou trazer uma pessoa aqui para cima do palco. Seria bacana!
Retornando ao meu lugar na arquibancada, cai em mim.
- Vou me esquecer de tudo, não é?
A ruiva fingiu um suspiro impaciente.
- Façamos assim: quando Paul tocar "The Long And Winding Road" ele irá se lembrar. Mas apenas durante a canção!
Olhei para ela abismado.
- Mas ele já cantou essa música!
Ela deu uma batidinha no meu ombro.
-Ah, tolinho! Mas ele não sabe disso! E nem você!
O paradoxo temporal não parecia perturbá-la.
- Posso continuar? Ok! Você vai poder escrever sobre isso, mas vai achar que é apenas um texto de gratidão. Uma fantasia. É o máximo que posso fazer!
Dessa vez o meu sorriso superou o dela.
- Mas nós sabemos que você é capaz de muito mais que isso!
Ela abaixou os olhos com uma paz tímida e disse, de modo doce:
- Eu sei.
Nos beijamos novamente. Seus lábios tinham a leveza das pétalas das rosas. Seu perfume misturava orvalho e brisa marinha. Os olhos verdes deram um cintilar final. Desapareceu.
A lua retomou seu percurso celeste. As pessoas voltaram a se mover, eufóricas de música. Paul cantava como um menino. Tudo era uma forma de infância.
Mas de onde vinha essa memória de uma forte crise de choro incontrolável quando "The Long and Winding Road" começou a tocar? As lágrimas frescas provavam que a emoção era real. Quando a canção soou em seus primeiros acordes, de onde vieram tantas lembranças de tristezas, alegrias, pessoas amadas, carinhos, presentes do coração, amizades, família querida, situações especiais, afetos, romances, música, música e música?
As cenas tinham se descortinado quando ele cantou. E foi quando aprendi. Aprendi que não se vê a vida passar diante dos olhos no momento da morte, mas no instante da vida.
E aquele instante possuía um perfume de orvalho e brisa marinha.
2 comentários:
Obrigado, Sonets, por mais este presente!!!!
Simplesmente fantástico. O depoimento mais sincero e emocionante que li sobre os Beatles, e olha que muita coisa foi lida sobre eles nesses últimos meses. Só quem é fã e foi no show consegue entender completamente o que você registrou em palavras, de forma maravilhosamente bela e poética. Ao fim do texto, uma certeza na minha cabeça: "I Feel Fine"! Parabéns, ou melhor, obrigado!
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